Martín López-Vega
A eterna qualquercoisa

13 

Os gansos cruzam o céu tocando a sua cómica trombeta,
os gatos gémeos brincam e ronronam,
as vacas tramam as suas filosofias
e o vento leva pensamentos estranhos.

– Noutro dia, e ainda estava a nevar,
ia a atravessar a rua
quando um murmúrio me chamou a atenção.
A árvore nevada estava cheia de pintarroxos
enroscados no camarim da primavera.
E dizem que quem vê o primeiro do ano
terá a sorte de feição. Pois eu vi-os a todos!

Ele conta como neste inverno
os cardeais vinham alimentar-se
no comedouro que pende do telhado
e o vento balançava-os
como crianças enregeladas sob a espessa neve.

«Sei que deveria. Mas não quero partir», repete.
Não sabe o exato dia
mas logo o seu lugar será outro.

Sabe quem cuidará do gado,
quem atenderá à colheita,
quem velará pelos gatos
e quem manterá a casa em pé.
Mas não é isso. Envergonha-o confessar
que são os gatos quem o guarda,
que é o gado que vela o seu sono,
que é a colheita o que põe ordem nos seus dias
e é a casa que cuida dele.

2.ª ed.: junho 2022
150 x 210 mm | 102 pp.
ISBN 978-989-53681-3-6

Edição bilingue [espanhol e português]
Tradução: Jorge Melícias
Imagem da capa: Francisco de Goya, Viejo columpiándose [1824-28]

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