Genaro da Silva
O pintor cego

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O deserto era um ar imenso sem aroma.
A infância cheira a humidade
e ao tempo fresco dos grilos.

O anjo não quer pintar o deserto mas a espera;
não quer pintar o poço mas o frio.

Por isso regueiros de areia nos rochedos;
por isso asas de libélula no lago.

Quando menino o pintor cego
alguém cingiu a sua mão
e descreveu efígies no ar:
Isto é o nimbo, o arco-íris.
Estes são os cúmulos e cirros.

Soterra pedras então o anjo na praia
e mostra vazias
as mãos.

É nesta dor
em que se afana.

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REF: LC5 Categorias: , ,

1.ª ed.: junho 2021
150 x 210 mm | 118 pp.
ISBN 978-989-8029-87-4

Edição bilingue: galego e português]. Tradução: Jorge Melícias e José Rui Teixeira.
Imagem da capa: Paul Klee, pormenor de Caminhos principais e caminhos secundários [1929].

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